– Sabe que, às vezes, penso que a gente é tipo uma festa de desconhecidos?
– Como assim?
– Então, é como se eu estivesse numa festa, dessas de apartamento. Mas eu não conheço ninguém, sabe? Só de dar oi. Aí estou lá na festa, super deslocada. Fico me entupindo de amendoim, mexendo no celular, fingindo que estou interagindo. Mas a verdade é que só estou apagando mensagem velha da caixa. E nessa festa aí todo mundo é bonito e já foi pra Holanda.
– Tá rs…Mas o que isso tem a ver com a gente?
– Então…Eu estou lá na festa. Fui pra parecer legal, no meio daquela gente bonita que foi pra Holanda. Mas eu não me sinto legal. Daí eu acho que o melhor mesmo é ir embora. E enquanto estou lá decidindo se dou um tchau pro dono da casa ou saio à francesa, a campainha toca e chega você.
– Ahm…
– E você é bonito, mas só foi pra Fortaleza. E conhece todo mundo da festa, precisa ver. O dono da casa fica animado de te ver e te zoa um pouco, porque você sempre chega tarde. Você pega uma cerveja.
– E você não ia embora?
– Ia, mas aí me perdi, olhando você ali, pegando a latinha, que deixa pingar um pouco d’água, enquanto você dá o primeiro gole. Acho que você me viu olhando, porque aponta pra própria cerveja e pergunta se eu quero uma. Eu aceito. E já gosto de você, porque você está de chinelo e sem mochila, mas se te chamassem pra ir passar o resto da noite numa praia a 3 horas dali, você iria.
– 3 horas é perto…
– Bebo algumas latinhas, mesmo não gostando de cerveja. Você me conta alguma história sem importância, que me faz rir. Não era engraçada. Mas alguma parte minha, alguma parte entre o esôfago e os pulmões, parece ficar meio mole. E o riso sai. Você faz rir outras pessoas também. Chega a dar umas voltas no apartamento, mudando de rodas e assunto. Mas toda vez você volta e eu esqueço que estava indo embora. Agora a gente está lá num canto, esparramados num puff verde, meio melado de bebida. A gente não fala muita coisa, mas não estou mais deslocada e me sinto legal. Você tem um cheiro bom e eu decido que quero pagar o aluguel daquele puff e assinar contrato.
– Sua cara haha
– Noto que você não é muito de olhar no olho. Tem medo de ser pego. Mas eu olho mesmo assim. E você já está sério, meio cansado. E quando acho que já bodeou de mim e do puff verde, gargalha e conta daquela vez que você acordou numa cama, sabe deus onde.
– Ah, mas essa história é boa mesmo!
– A galera está começando a ir embora aos poucos. Aí me dou conta de que você vai uma hora também. Dói um pouco olhar pra você agora. E vem uma vontade de te esgotar ali, de gastar toda aquela noite antes que a festa de desconhecidos vire um apartamento vazio, cheio de latas vazias e cheiro azedo. Dá vontade de pegar sua mão e apertar até machucar. Mas você vai uma hora também…
– E eu não posso te ligar depois da festa, te adicionar no Facebook?
– Não nessa festa. Essa que criei aqui na minha cabeça. Nessa você só pode ir e nunca mais, entendeu? E está lá o desejo de que você seja pra sempre daquela cor alaranjada, que a luz do fim da festa de desconhecidos te deu. E que eu consiga lembrar do barulho que faz o ar, no espaço que sobra entre a gente. Você vai logo e antes de mim, porque você é o cara que iria pra uma praia àquela hora, de chinelo e sem mochila. Mas enquanto você não vai, eu quero ficar ali, quieta e te tendo pra sempre, antes que a festa acabe.

Nota

Com açúcar

Não posso te dar meu texto mais bonito, nem palavras roubadas de um poeta desconhecido e  muito menos aquela música que cantei aos berros num show na XV de Novembro. Pouco e tanto, na mesma medida, que soariam como falas de novela mal escrita. Insuficientes e exageradas.

Mas se desse, juro que colocava este bem querer no pó de café que, dissolvido em água e baunilha, te acompanhará noite adentro.

Cena 2

Descia a rua sem pressa, olhando a gente que enchia as calçadas, fumantes, amantes e madrugadores, ocasionais e inveterados. Todos cobertos pelos neons e pela mesma chuva que ela. Pensou em entrar no café da esquina, pedir um expresso e uma torta de menta. Tirar o livro imenso da bolsa e tentar passar da página 21. Mas nunca havia se sentado sozinha num café e suspeitava que pudesse sentir medo. Medo e vaidade. Não queria. Queria continuar descendo. Se encher da chuva e andar. Só assim podia não estar só e não se sentir e desamassar os desejos, tudo junto. Além de ver a arte de rua e se odiar por não ter uma câmera na bolsa.
Então descia e observava as bocas que falavam. Gostava de fantasiar o que diziam: brigas, apelos, confissões, maledicências ou uma crítica blasé de algum filme que ninguém veria. Duas putas conversavam sob uma marquise. Seria bom se sentar com elas e perguntar se tinham um sonho como o seu. E se sabiam de algum lugar pra alugar por ali.
Andava e pensava que se ele estivesse ali, faria algum comentário sobre o feminismo e sobre sua ousadia. Ela sorriria e os passantes, com seus cigarros, amores e olheiras, olhariam para os dois, sabendo que teriam filhos lindos. Filhos que aprenderiam caligrafia em folha de partitura. E aos finais de semana, juntariam os amigos num apartamento na Marquês de Paranaguá. Ela tomaria Dry Martini, não pelo gosto, mas porque era um jeito de ser bonita. “A culpa é desse biquinho que você faz”. As mulheres estariam floridas, sem se importarem com o tamanho do ventre, só com o do sorriso. E os homens fariam danças engraçadas, embriagadas e gritariam contra o sistema e a favor do futebol. Um deles pegaria o violão, o outro, uma colher de pau. Batucariam um samba e ela cantaria errado, porque sempre cantava errado. Riria de si. “A música redime os homens!”, brindaria um amigo. Haveria crianças, tantos sobrinhos, afilhados, uma geração de poetas-fedelhos. Um já vestiria pequenas calças andinas. Ele contaria uma piada péssima. Bobo. E ela riria dele, tão belo aos 40 como aos 20; o mesmo sorriso de quem acreditava que a vida podia ser boa. Boa o bastante, mesmo com chuva.
Talvez esse sonho envelhecesse e um dia olhasse para ele, como quem olha uma peça comprada há tempos, sem saber como já a vestiu. Por enquanto, pensou, deveria começar a beber Dry Martini. Ou andar, andar, andar. Até tudo ficar démodé.

Cena 1

O rapaz digitava rapidamente algo em seu celular, enquanto ela percorria as opções do cardápio. Seu sanduíche favorito estava fora de cogitação. Terminaria o encontro com a Mata Atlântica nos dentes e isso, definitivamente, não seria bom. Talvez um grelhado. Não, muito arrogante. Uma tônica talvez. Mas eu estou com fome. E isso tudo é ridículo.
-Um café, por favor.
O garçom anota o pedido e se dirige então ao rapaz, que ainda não abrira o cardápio a sua frente.
-Me vê um chope.
-Desejam mais alguma coisa?
-Não, por enquanto, é só isso, valeu.
O garçom se retira e o rapaz fica calado, dando tapinhas no saleiro.
Ok, um assunto. O que eu fiz mesmo hoje? Não, não, nada bom. Ele não vai se interessar por isso. Não fale de Klimt, García Marquez, nem de projetos sociais. Você estragou tudo da última vez.
-Então, me conta como foi seu dia.
-Ah, encontrei uns amigos. A gente saiu pra beber. Na verdade eu tenho bebido há três dias.
-Ah, bacana.
-Não muito. Mas eu tava meio sem ter o que fazer, os caras me chamaram. Férias, às vezes, são uma merda.
-São? – Ela não tirava férias há 2 anos.
-Você sabe…Eu fico em casa, durmo, acordo, minha mãe faz um lanche pra eu comer. Aí os caras me ligam. Eles sempre ligam. Aí a gente joga um pouco e bebe pra caralho. Aliás, desculpa o atraso. Os caras…
-Não, tudo bem. Acontece.
-Mas eu tô pra conseguir um trabalho.
-Nossa, que bom! E aí, o que você vai fazer?
-Eu não sei, na verdade. Mas vai sair uma grana, isso que importa, né?
Nas mesas vizinhas, os casais sorriam. Homens ampliando magicamente o tamanho dos ombros. Mulheres interessadas nos ombros dos homens. Já o rapaz a sua frente parecia estar se afundando na cadeira. Sem ombros, sem assunto e já sem o chope.
– Vou pedir mais um. Não quer também?
Ela balança a cabeça, enquanto olha para as gravuras que lotam a parede do café. Um assunto, um assunto. Ah, foda-se.
-Klimt é fantástico, né?
-Quem? O Eastwood?
-É, esse também. Qual seu filme favorito?
-Do Clint? Ah, não, não conheço bem. Ele fez uns cowboys, né? Ah, e tem também aquele filme que ele pega uma puta e se apaixona por ela, daquela musiquinha que ficou famosa e tal. É o mesmo cara, né?
-É. Talvez.
Deus, isso tudo é ridículo. E por que eu estou com esse vestido tão curto?
-Você gosta de ler?
-Gosto, gosto.
-Você deve conhecer o Gabriel García Marquez então.
– Acho que não. Brasileiro?
-Colombiano.
-Ah, massa. Muita sacanagem nos livros desse cara?
Sacanagem é o que estou fazendo com a minha noite.
– Nem tanto. Mas e você? O que você gosta de ler?
-Ah, pra falar a verdade mesmo, eu li os livros da FUVEST. Mas eu lembro que curti. Tinha aquele do maluco que encanou que era corno.
-Uhm…
-Então, é isso…Mas ler é bom, é bom. Eu até tô com um livro lá em casa, ganhei de uma tia. Eu tô tentando ler, mas aí os camaradas me ligam…
-Sei.
-Mas e aí? Que mais você faz? Por que você trabalha e tá fazendo o doutorado, né? Foi mal, eu sei que você já me contou, mas num consigo guardar o que você ta pesquisando.
– É um estudo sobre…
– E tipo, sobra tempo pra fazer alguma coisa interessante?
-Ah, eu participo de uns projetos sociais…
-Tipo caridade?
O garçom aparece. Caridade.
-Você se importa da gente pedir a conta?
-Não, beleza. Eu vou mesmo encontrar com os caras ainda.
-Certo, então. A conta, por favor.
Vinte e dois reais. O cartão dele não passa.
– Beleza, da próxima vez a gente acerta.
Mas ela sabe que não vai ter próxima vez. Já na esquina, liga para a amiga, que aguardava notícias.
-Ai, querida. Não foi dessa vez.
-Mas o que houve?
-Ah, acho que ele não gostou muito de mim. Achei melhor ir embora logo pra não piorar as coisas. Estraguei tudo. Esse vestido é uma merda. E você acredita que eu falei de novo do Klimt?

Décimo primeiro andar. Era ali onde se refugiavam as mães de filhos mortos, onde doentes pediam o alívio de sua dor e onde ela chegou, sem saber, ao certo, o porquê. Cautelosa, sentou-se no banco mais distante do altar-mor, ainda indecisa sobre o que fazer. Talvez se ajoelhar, recitar o Pai Nosso ou a Salve Rainha, como lhe haviam ensinado. Talvez, se não houvesse qualquer coisa de representação em tudo aquilo, se não se perguntasse a cada minuto o quão útil era estar ali e que direito tinha de solicitar que aquele Deus, tão ocupado com outras causas mais importantes, se ocupasse também com as dela.

Olhava a nave, a sequência de esculturas negras da Via Crucis e uma goteira, através da qual um pedaço da chuva, que encharcava a cidade naquela manhã, invadia a capela. Sem conseguir se decidir, afundou a cabeça no próprio peito e chorou. Chorou seus sonhos pequenos, seu ventre para sempre vazio e a certeza de tanta espera impossível de esperar. Abraçava a si própria, apertando os próprios braços, acariciando o próprio rosto e cabelos. Chorou até ouvir vozes que se aproximavam. Vozes de mulheres, de um homem e um riso de menino.

Não arriscou erguer a cabeça, pois sabia que seus olhos denunciariam os motivos pelos quais chorava. Um padre explicava ao menino, que os vitrais da capela eram de Di Cavalcanti e as esculturas, de Victor Brecheret. Vitor como ele. E o menino ria, acompanhado pelas mulheres. Imaginou-o correndo pela nave, olhando para a imagem robusta de São Paulo, encarapitando-se em algum dos bancos.

Quando decidiu, por fim, que já não havia tantas lágrimas e que seus modos poderiam parecer indelicados para o grupo, ergueu o rosto. O menino Vitor, deitado em uma maca, olhava o teto da capela, curioso, mexendo os pezinhos rapidamente. Devia estar com frio. Ela estava com frio.

As mulheres – eram três – arrastaram a maca até a frente do altar, onde se encontrava a grande cruz, de onde pendia um Jesus morto e passaram a explicar passagens do evangelho à criança. A essa altura o choro da moça já havia cessado por completo. Ela não queria que Vitor a visse chorando, pois seus pezinhos sentiam frio e não parecia justo chorar.

Recostou-se no banco e lá ficou por longo tempo, ouvindo a criança e suas perguntas. Lembrou de uma medalhinha de Nossa Senhora das Graças e do rapaz que lhe falara de fé. Quando era pequena, quis saber o que era isso. Era acreditar, disseram. Simples. Bonito. Mas acreditar em que?

Logo o grupo foi embora. Ainda pôde ouvir o padre começar a falar de futebol com o menino. Permaneceu ali por um longo tempo, escutando a chuva e, é verdade, chorando novamente. Mas pensou que talvez ainda pudesse acreditar em alguma coisa. Quem sabe no menino Vitor e em sua capacidade de sorrir.

Lavadeira

Vou pra Bahia pra ver se lavo a alma na beira de um rio. Vou ver se fica branca, branquinha, e depois a deixo secar sob o sol. Sol da Bahia. Talvez até faça uma oração a um santo preto, que saia da peanha e sente comigo numa roda, onde toque samba e se ria em verso. Aconhegada a ele, pedirei pelos amores que perdi e pelos que ainda não encontrei.

Carta a alguém

B.,

As coisas vão bem por aqui. Consegui finalmente arranjar os livros nas prateleiras, meu cabelo obedeceu ao trabalho paciente dos grampos essa manhã e desencaixotei alguns álbuns antigos, que me proporcionaram uma tarde de espirros e recordações. O número de fotos diminuiu consideravelmente com a passagem dos anos e já há muito não se vê retratos meus. Os últimos são daquela viagem a Porto, quando lhe escrevi, contando que realizava enfim um sonho de moça. Deve se lembrar, pois fui muitíssimo indiscreta. Meu pequeno bilhete embriagado, que mesmo pretensamente disfarçado nas palavras se denunciava no vestígio rubro sobre o papel. Achei que gostaria daquela gota de vinho, afinal era o que poderia lhe enviar. Das palavras não sei se gostou.

Penso que isso não é importante agora. Seu gostar e desgostar sempre foram o meu gostar e desgostar, um pedaço de mim mesma revelado em sonho ou tormenta. No fim, sabe que lhe deixei todas as certezas. Hoje lhe deixo cartas.

A propósito, havia uma foto sua. Seus vinte anos sorriam tudo o que era. E você, em sua beleza tão pouco óbvia, pareceu-me eterno. Todo o restante estranhamente perece. Cada vez mais depressa.

Encerro aqui. Há ainda muito o que pensar, ordenar e cumprir. A chaleira apita sobre o fogão. Tem feito frio por esses lados e agora anoitece. Sempre anoitece.

Com amor

L.

(22/09/10)

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